O casamento morreu?

Eu sou uma pessoa que gosta de começar pelo final. Assim sendo, já vou logo respondendo à pergunta título deste artigo: não, o casamento não morreu. Mas, está com os dias contados!

Ouvimos desde a infância que todas as mães amam seus filhos, que devemos amar o próximo, que casamento, só por amor! Qualquer outro motivo para casar é considerado no mínimo leviano. E as pessoas falam, cochicham, fofocam sobre a tal “interesseira” que se casou por dinheiro… Mal sabem estas pessoas que casamento por amor é invenção recente, que os casamentos nem sempre foram feitos entre dois indivíduos e que o amor, este talvez tenha sido o último a entrar nesta equação.

 

A verdade é que muitas pessoas se casam por que temem a solidão. No entanto, o fato é que o casamento pode ser muito mais solitário que suas alternativas. Em nossa sociedade, muito diferente de outros períodos da história humana, o casamento tende a afastar as pessoas da comunidade e a enfraquecer os laços com as famílias de origem, amigos e colegas.

Os casamentos nem sempre foram como conhecemos hoje

Curiosamente, os casamentos no mundo primitivo eram grupais e tinham como uma das suas principais funções a proteção contra as ameaças da natureza. A sobrevivência era o principal objetivo e para isso, o homem primitivo devia copular rapidamente e sem restrições. A maternidade era óbvia, mas a paternidade não. Levou alguns milhares de anos até que a humanidade entendesse a relação entre sexo e procriação. Noções de moral, culpa, infidelidade e pecado não existiam nessa época.

Assim, os casamentos grupais eram possíveis enquanto o comportamento sexual permanecia instintivo e fora do controle consciente. Mas, uma vez que o mistério da concepção foi revelado e a ideia de “propriedade” começou a existir entre os homens primitivos, o conceito de sexo/casamento grupal se tornou insustentável e teve decretada sua sentença de morte. Para sempre. A revolução sexual da década de 70 que o diga!

 

A grande questão é que a morte do casamento grupal levou com ele a igualdade de gênero. Olhe a sua volta. Procure por homens e mulheres com mais de 30 anos que ainda não se casaram. O que você pensa deles? Como você acha que as outras pessoas os vêem? Provavelmente você irá perceber que os homens são tidos como independentes ou inteligentes enquanto as mulheres na mesma situação são vistas como desesperadas, dignas de pena e são muitas vezes tratadas como mercadorias perecíveis.

Como nascem as crenças?

Desde a infância as meninas são doutrinadas a desenvolverem as virtudes do casamento, o que contribui para o fortalecimento dos papéis de gênero. Esta ideologia educa os meninos como guerreiros e responsáveis pelas decisões e as meninas como mães e donas de casa. Os meninos são incentivados a serem corajosos e fortes enquanto as meninas são incentivadas a serem belas e passivas.

Há alguns poucos anos um dos meus sobrinhos que tinha 4 anos. Estávamos visitando minha mãe e eu digitava algo em meu laptop. Ele se aproximou de mim com uma imensa interrogação tatuada na testa. Perguntei o que era e ele me disse: Titia, você é homem!

Diante do meu espanto ele se explicou: Você dirige aquele carro; você tem dinheiro e comprou este computador, então, você é homem!

A realidade é que todas as mulheres da minha família trabalham e fazem seu próprio dinheiro, com exceção da mãe dele. E este é o modelo que está presente na vida dele e este é o modelo que ele entende. E é provavelmente assim que ela quererá sua parceira/esposa.

Quando crianças nós lutamos para entender o mundo e buscamos sentido para os eventos e objetos. Precisamos aprender o mais rápido possível o que é e o que não é e para isso utilizamos categorias, como homem e mulher, por exemplo.

E assim crescemos: cheios de certezas e regras do que deve e do que não deve. E assim nos casamos. Mas, diferentemente do que acontecia há algumas décadas, atualmente homens e mulheres não têm as mesmas necessidades sociais e econômicas de permanecerem casados como no passado. Por isso, acredito que ESTE casamento não tem futuro. Casamentos não permitem hierarquia e nenhuma das partes deve, jamais, se sentir oprimida.

Mas, como evitar que isso aconteça?

Primeiro, devemos deixar de lado a ideia de que devemos nos casar com “A pessoa”. Sabe aquela pessoa especial, única? Pois é, ela não existe. Não podemos acreditar que “A pessoa” será nosso melhor amigo, um amante apaixonado, um incentivador intelectual, bonito, inteligente, que irá nos proporcionar senso de segurança, aventura e mistério, tudo ao mesmo tempo. Isto é impossível!

Segundo, é especialmente importante que comecemos nossos relacionamentos como amigos. Somente a partir daí poderemos construir casamentos baseados no respeito mútuo e na igualdade, com equilíbrio entre as expectativas e as responsabilidades.

Bom casamento!

 

Texto publicado originalmente em yezz.news.

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